Sábado, 19 de Maio de 2012
     JUNTA DE FREGUESIA DE OVAR

Figuras Vareiras - João Costa


João da Silva e Costa

 

João da Silva e Costa é natural de S. Martinho da Gândara mas ninguém diz que não é natural de Ovar, tal a paixão desmedida que tem por esta terra. Veio cá parar em virtude dos seus pais, comerciantes, terem aqui aberto um negócio, que João Costa perpetua até hoje. Mas não é da sua vida que gosta de falar e recusa-se a entrar em mais pormenores. Em compensação, de Ovar e das suas tradições fala com entusiasmo e gosto.


A tradição que mais lhe preenche o coração é, sem dúvida, o Cantar dos Reis. “A primeira trupe que eu integrei foi a Trupe Comércio e Indústria, mas a determinada altura, os seus elementos decidiram que não voltavam a sair. Eu fiquei com muita pena, porque gostava muito dessa tradição. Nessa altura as sedes da J.O.C. (Juventude Operária Católica) e dos Escuteiros situavam-se nas mesmas instalações (onde é agora a Escola dos Combatentes) e então eu falei com os Escuteiros, para saber se eles não estariam interessados em formar uma trupe. A ideia foi bem acolhida e assim nasceu a Trupe de Reis JOC-Escutas”.


João Costa recorda a ostentação que existiu noutros tempos, na recepção às trupes. “Antigamente, as famílias mais abastadas de Ovar contratavam profissionais oriundos das mais conceituadas confeitarias do Porto para virem cá servir as trupes. Isso ditou o fim das trupes pioneiras, porque essa ostentação contrariava o espírito de simplicidade que era transmitido através dos números”.


O Carnaval era outra tradição vareira que podia contar sempre com a presença de João Costa. E apesar de não gostar de protagonismo, foi protagonista do mais célebre episódio carnavalesco, aqui contado na primeira pessoa. “Eu e o meu cunhado decidimos imitar um casal de pessoas formadas que vieram viver cá para Ovar. Ele chamava-se Vicente e era director do F. Ramada e a esposa chamava-se Eduarda. Era um casal que dava muito nas vistas e que pertencia à elite de Ovar. Frequentavam ambos o Café Progresso, onde ela era vista a fumar, uma coisa muito arrojada para a época”. E aquilo que era apenas uma brincadeira, veio a transformar-se num acontecimento muito sério!
“Saímos numa quinta-feira e reparamos que toda a gente nos identificou como sendo o tal casal. O povo achou muita piada mas as pessoas ligadas ao casal acharam que estávamos a chacotear. Bem, a cena deu tanto brado que tivemos que fugir e acabámos por alugar um carro de praça para podermos ir embora”. João Costa e Fernando Alçada não desarmaram e saíram mais uma e outra vez. “O que é certo é que o alarido foi tão grande que havia gente que vinha ver-nos de propósito! Numa ocasião tínhamos um fotógrafo à nossa espera!” E noutra ocasião quem estava à espera deles era a Junta de Turismo, responsável pela organização do Carnaval. “Começaram a dizer que tínhamos que acabar com aquilo mas eu disse que continuaria a sair, porque entendia que não estava a fazer nada de mal, já que nunca disse que estava a imitar esta ou aquela pessoa. Mas ameaçaram-nos e tudo! Disseram que se voltássemos a sair, chamariam a GNR!”. A dupla não se deixou intimidar e saíram mais duas vezes, a última das quais no Domingo gordo. As pessoas aguardavam o casal com expectativa, porque queria saber quem tinham sido os foliões capazes de tamanha brincadeira. “Nós resolvemos, então, convidar o Santa Camarão para sair connosco, a fazer de conta que era o nosso guarda-costas”. A paródia foi geral.


João Costa lembra ainda a dinâmica que imperava em cada um dos muitos bairros existentes em Ovar. “O Carnaval tinha o sucesso que tinha, porque os bairros organizavam-se e cada um queria ser o melhor! Então as pessoas trabalhavam intensamente e como havia muita rivalidade, o empenho era enorme. Houve um ano em que o carro da Arruela saiu todo revestido com flores de papel, milhares delas, feitas à mão”. Mas, segundo recorda o nosso interlocutor, não foi só no Carnaval que os bairros se evidenciaram. “Quando se construiu o Hospital de Ovar os bairros movimentaram-se e organizaram marchas e cortejos de oferendas para angariar dinheiro para aquela unidade de saúde”. Os Santos Populares também eram comemorados em grande. “Na altura do S. João organizavam-se verbenas nos diversos largos de cada bairro, de modo que, naquela noite, havia festas por toda a cidade”.


Apesar do assédio que diz ter sido vítima, nunca a política o seduziu. “Quem envereda pela política tem que ter visão e espírito criativo. Se eu aceitasse algum dos convites que me foi feito, teria que pensar no que iria fazer. Aceitar cargos só por aceitar está totalmente contra os meus princípios”.